Curso: A prática da Meliponicultura como hobby.

A criação de abelhas nativas sem ferrão como atividade de prazer e
relaxamento nos tempos livres.

Venha passar uma tarde com as abelhas nativas sem ferrão!

07
Os integrantes de uma das últimas turmas do curso ocorrida em 2016.

 

O Meliponário Tapajós abre as portas para contar como esses incríveis
insetos tem agregado valor na vida de seus mantenedores. O responsável
pelo meliponário trabalha como Professor Doutor e Pesquisador em
outra área de atuação, mas pratica a Meliponicultura não apenas como
hobby e sim como um estilo de vida holístico.

Criar abelhas é uma atividade holística, serve de estímulo aos cinco
sentidos do corpo, pode ser feito em qualquer idade, não exige muito
tempo para manejo (em média uma vez por semana) e é um ser vivo
endêmico, ou seja, você contribui para preservar e ampliar os recursos
naturais ao seu redor.

09
Algumas das prateleiras do meliponário.

 

O curso é formatado com explanações teóricas, pausa para café da tarde e demonstrações práticas nas instalações do Meliponário. A data para o evento é 24/09/2016 (sábado), das 13h às 17h, em Vinhedo-SP, com custo de 100$ por pessoa. A atividade é divida em dois eixos básicos, detalhados abaixo.

1) Parte teórica.
– História e particularidades do Meliponário
– A importância das abelhas
– Biologia das abelhas
– Dicas de manejo racional
– Como capturar enxames por meio de iscas
– Pasto apícola.

10

 2) Parte prática.
– Degustação de própolis da abelha Mandaguari
– Simulação de divisão de colmeia com caixa INPA vazia
– Apresentação de enxames de Mandaçaia: novo, médio e forte
– Degustação de mel da abelha Mandaçaia
– Apresentação da abelha Mandaguari e como coletar própolis bruto
– Visualização do comportamento da abelha Mirim Preguiça em caixa (didática) com visor vertical e horizontal
– Apresentação da abelha Uruçu-Amarela e degustação do mel
– Visualização dos enxames em atividade: Jataí. Iraí, Mirim Droryana e Manduri
– Transferência de enxame capturado em isca para caixa racional ou divisão de enxame ou manejo avançado com identificação das partes de um enxame.

099
Observação do fluxo de campeiras de uma caixa Matriz de Mandaçaia com “tampa de geoprópolis” por uma turma de 2016. Foto feita pelo participante Carlos Barrichello Jr.

 

Caso tenha interesse em cursar a próxima turma, por favor,
preencha o cadastro clicando no link abaixo:
http://www.meliponario.com/cadastro

As vagas são limitadas!

Entrada intercambiável de material reciclável.

Todo Meliponicultor sempre tem a mão sobras de madeira proveniente da confecção de caixas e tem ou encontra com facilidade garrafas pet das mais diversas: água, refrigerante, suco, etc. Alguém acabou juntando essas duas coisas para formar um apetrecho interessante para o manejo de abelhas, em especial, a Mandaçaia. Chamo ele aqui de: “Entrada intercambiável de material reciclável”.

Não sei precisar a origem, mas lembro, em especial, de ter visto imagens da invenção no blog do criador Lúcio Pivoto e no facebook do Castorino Carvalho, que faz uso do dispositivo em iscas para Mandaçaia e depois transfere para a caixa junto com o enxame, tendo a vantagem de ter a entrada formada de geopropolis intacta.

Resolvi colocar o dispositivo pela primeira vez em prática por dois motivo: a reciclagem e a facilidade de intercâmbio que o sistema permite. No processo de reciclagem, a vantagem é reaproveitar parte de garrafas pet, pois o bocal delas tem em sua maioria um diâmetro comum e reaproveitar restos de madeira. A vantagem de se intercambiar as entradas entre as caixas é rosquear o cone “virgem” em uma caixa forte, deixar com que confeccionem a entrada e depois retirar e rosquear essa entrada em um enxame novo ou fraco. Acredito que esse sistema pode substituir o tradicional túnel de entrada feito de madeira, inclusive, pois acaba formando um túnel perpendicular a entrada da caixa de cerca de 5cm. Ou seja, uma entrada intercambiável pode fornecer proteção contra predadores como lagartixa, forídeos, formigas, facilitar a recuperação de enxames e ajudar nas divisões de enxames.

Abaixo os primeiros três passos para confeccionar o dispositivo.
entrada_01

Usando uma cola com secagem rápida é possível deixar essa parte pronta em poucas horas, podendo até fixar em uma caixa com enxame já instalado no mesmo dia. Repare na foto que a parte branca é a cola, optei por deixar a tampa um pouco saliente em relação ao nível da madeira.

entrada_0222

Abaixo os passos finais para confecção e instalação da entrada intercambiável.

entrada_03

Por fim, uma foto da entrada instalada e com um dia de uso em um enxame matriz de Mandaçaia MQA do Meliponário. Perceba que elas fizeram a entrada com muita eficiência em cerca de 24 horas, a dica é que além de usar um enxame com boa população de abelhas, o clima ajuda, nessa caso o dispositivo foi fixado propositadamente em um dia chuvoso, como a prateleira fica em um local com chão de terra a oferta de barro foi providencial. No detalhe as aperárias trabalhando na confecção da entrada.

img_04

Abaixo uma imagem mais distante da entrada instalada na caixa.

entrada_00

Malpighiaceae

A gente começa a criar abelha e passa a reparar em tudo quanto é tipo florada. Esse ano notei um tipo de flor que até então não tinha reparado. Ela cobre as bordas da mata trepando nas árvores com um bonito amarelo. Como sou totalmente ignorante em botânica, tirei algumas fotos e postei num grupo de identificação botânica no Facebook. Sabe quanto você tem a impressão de ter visto aquela flor de algum lugar, pois é, a pequena flor era da família da acerola: Malpighiaceae. Abaixo algumas fotos que fiz para ajudar na identificação.

01

02

03

04

05

06

Acho fascinante esse processo de descoberta e identificação de plantas Nativas, mas como não possuo conhecimento nem instrumentos, foi auxiliado por Adriano Cicco Maruyama, pessoa que não conheço e sequer sou amigo do Facebook, mas é assim mesmo, esse é um dos pontos bons de se viver na sociedade do conhecimento mediada pela internet.

Após identificar a flor, minha curiosidade foi saber se minhas abelhas estão tirando benefício direto dessa florada, em pesquisa rápida no google, identifiquei esse artigo cientifico “Polinização da Aceroleira (Malpighia emarginata)” de Kátia Maria Medeiros de Siqueira (http://www.cpatsa.embrapa.br:8080/public_eletronica/downloads/SDC229.pdf). No referido trabalho tomei um pouco de conhecimento sobre essa espécie, visto que não achei nada sobre a trepadeira (Liana) que identifiquei. De acordo com a autora as espécies de abelhas que agiram como polinizadoras foram: Centris aenea, C. (Ptilotopus) maranhensis, C. tarsata, C. trigonoides e C. obsoleta. Quer dizer, nada de Meliponas e Trigonas, -as espécies que crio. Em outro trecho do texto “A FamÌlia Malpighiaceae destaca-se por apresentar muitas espécies que oferecem Óleos florais como recompensa aos visitantes, em lugar de néctar (VOGEL, 1974).” Ou seja, nada de néctar também.

No entanto, tenho pra mim que já observei ao menos trigonas na florada da acerola que tenho no quintal de casa, embora não me recorde com certeza. Outro aspecto que me motiva a continuar a pesquisa é que é uma florada muito exuberante (fevereiro/março) e que precede a florada de “Cipó-Uva”. Infelizmente as flores estão em árvores muito num trecho de mata muito denso perto de casa o que não permite a entrada para observação.

De acordo com Rafael Felipe de Almeida, no grupo identificação botânica essa espécie é a Stigmaphyllon lalandianum A.Juss. Inclusive ele está terminando um guia pra stigmaphyllon do Brasil.

O funcionamento da postura da Mandaçaia.

Curioso por saber como funciona a postura das minhas colmeias de Mandaçaia MQA resolvi recorrer aos colegas do Fórum Abena pelo Facebook e por e-mail. O resultado foi bem interessante.

A primeira etapa foi “cercar o problema”, ou seja, formular a pergunta de modo específico. A pergunta foi formulada da seguinte forma: Gostaria de saber se alguém conhece algum estudo ou já observou na espécie Mandaçaia o tempo que a rainha e sua casta levam para iniciar e finalizar uma POSTURA?. Principalmente numa divisão nova. Ou seja, quanto tempo levaria do início ao fim a primeira postura, o início da segunda, depois a terceira e assim por diante…

Resumindo: A partir do início da postura, quanto tempo demora para finalizar um andar de postura e subir para o outro?

O professor David Aidar recomendou artigos dos professores Dr Ronaldo Zuchii e Dra Luci Bego. A pesquisa pelo Lattes dos mesmos mostrou artigos sobre o temas, mas muito antigos o que impossibilitou achar algo em pdf na busca pelo Google.

Consultando o livro do Prof. Warwick Estevam Kerr, baseado em sua tese de Doutorado defendida em 1948, sob o título “Estudos Sôbre o Gênero Melipona”, encontrei na página 193 que a Mandaçaia MQA em 44 dias produz 596 ovos. Entre 13 e 22 ovos por dia.

Segundo o livro a Mandaçaia do Prof. Aidar (1996, p. 22) um favo de 6cm tem 150 células.

Considerando o favo médio de postura nova de 6cm com 150 células e valor médio de 17 ovos por dia, conclui inicialmente que o intervalo estimado entre um ciclo de postura e outro pode ser de 150/17= 9 dias.

Nesse meio tempo em que pesquisei por conta a informação apareceram algumas informações interessantes na lista de discussão por e-mail.

O Meliponicultor Eurico Novy de Sabará – MG, sugeriu a seguinte fórmula:

(Média da quantidade de abelhas  de uma espécie, dividido, pela quantidade (média)de dias de vida das abelhas) mais 20% (Zangões e princesas). Vejamos um exemplo:  600 mandaçaias (média) dividido por 50 (média) dias = 12 posturas dia (média)12 posturas dia mais 20% = 14,4 posturas dia. Então seria aceitável uma hipótese de que uma rainha de mandaçaia (MQA) tenha uma postura média (em condições ideais) de 15 ovos por dia.

O Meliponicultor Marcelo de Mogi-Mirim -SP,

Olha a postura da rainha depende das abelhas novas elas que produzem alimento larval e alimenta a rainha quanto mais tiver delas mais a rainha acelera a postura, desde que se tenha campeiras e condições favoráveis. Rainhas de mandaçaias MQA por dia faz postura de +/- 20 células dia enxame fraco, +/- 30 médio e +/- 40 a 50 forte. Discos de cria em qualquer enxame a rainha faz 1 disco a cada 4 a 5. Valores médios, mas bons manejos e tempo pra lidar da pra fazer a rainha fazer 1 disco com 350 crias a cada 2 dias durante 1 semana. Outro detalhe importante as Rainhas de todas especies não fazer a postura por disco e sim em forma hexagonal/cônica piramidal sempre nas extremidades e de baixo pra cima, raras vezes faz a postura de forma helicoidal, mas também de baixo pra cima.

O Português João Cappas, complementou a partir do comentário do Marcelo: Mas para isso ocorrer a rainha colocar tantos ovos ela tem de comer muitos ovos alimentares , ou seja tem de ter muitas obreiras a colocar ovos para ela comer para ela fabricar os dela a tempo de fazer 14, 4 ovos dia . Uma rainha de Mandaçaia pode colocar esses ovos por dia mas o normal é menos . São muitos factores em jogo como diz Gesimar. Tem de ter em conta que um ovo com uma alimentação normal ( sem ovo alimentar )   leva 3 dias a ser formado nos ovários.

Por fim, Marcelo complementou:

Só um aparte no texto do amigo CAPPAS, aqui em SP em Mogi Mirim as mandaçaias enxames médios  enchem 1 sobre ninho com 4 discos de +/- 200 crias ou 5 discos de crias de +/- 150 crias cada em +/- 15 dias anexo fotos com evolução desde inicio na base do sobre-ninho ate colocar na tampa a postura estas fotos em intervalo de 12 dias fez 4,5 discos com o clima atrapalhando (temperatura fria de inverno nos últimos 10 dias e choveu 6 dias seguidos). Na ultima foto da pra ver como fizeram bastante involucro pelo frio e chuva.

A partir dos dados apresentados acima construí alguns gráficos para ilustrar essa situação. A primeira figura mostra o ciclo de postura de uma colmeia média de Mandaçaia. Considerando os tempos médios de vida de embrião, abelha nova e campeira conforme a literatura sobre o tema, pode-se chegar ao valor médio de 10 dias entre a postura de um disco e outro. Ou seja depois de estabilizado o enxame, nascem abelhas de 10 em 10 dias.

img_01

Figura 01 – Ciclo de 10 dias de um enxame médio.

Abaixo na figura 2 a simulação de uma divisão, vemos o gráfico de uma colônia mãe ao ceder discos para formar um enxame filho. Nesse caso o ciclo de 10 dias é interrompido e demora trinta dias para voltar a produzir abelhas novamente.

img_02

Figura 02 – Gráfico que exemplifica o que acontece no ciclo de postura quando o enxame Mãe cede três discos.

Por fim, o que acontece com as campeiras no enxame mãe diante da situação. É fácil perceber que a perda dos discos implica em um primeiro estágio de 45 dias até as campeiras morrerem. Podemos dizer que nesse tempo inicial o enxame segue o ser curso estabilizado. No entanto, após os 45 dias o enxame fica sem abelha campeira, entrando em um estado crítico de 15 dias até estabilizar novamente.

img_03

Figura 03 – Gráfico mostrando o ocorre com as campeiras no processo de divisão.

Ao analisar a situação acima “postura versus divisão” é possível perceber que devemos deixar o enxame mãe que cede três discos nascentes pelo menos dois meses de quarentena, cuidando com alimentação complementar e pelo menos uma revisão aos 40 dias e talvez outra aos 60 dias.

É preciso que fique claro que foi trabalhado no texto uma teoria com números médios e aproximações imprecisas, sem base científica, na prática, ocorrem muitas variações na vida de um enxame. Esse estudo serve para nortear o meliponicultor quanto ao manejo adequado e evitar o sofrimento ou perda dos enxames mais do que uma receita de bolo ou regra.

O interesse sobre a postura do enxame de Mandaçaia pode levar para muitas questões que não apenas essas apresentadas. Tomando esse pensamento como ponto de partida pode-se elaborar outras hipóteses sobre enxames novos, frutos de divisões, mas isso é assunto para um próximo post.

Mandaçaia Decepada

man

É muito estranho pensar em um ser vivo com a cabeça cotada. No entanto, quem cria abelhas, –no meu caso a Mandaçaia, é muito comum encontrar abelhas decepadas perto das colmeias. Essa curiosidade me levou a levantar o assunto na comunidade Abelhas Nativas no Facebook. Alguns participantes fizeram considerações interessantes sobre esse hábito.

Gesimar, logo de cara avisou que decepar cabeça é o ato final de qualquer luta entre abelhas e levantou três possibilidades:

1) Eliminação de princesas da colmeia
2) Luta de castas na própria colmeia
3) Entrada de abelhas vizinhas na colmeia errada

Aqui cabe um comentário complementar, em cada disco de cria nascente de Mandaçaia em média nascem 80% de operárias, 15% de princesas e 5% de machos. Como a colmeia via de regra já possui rainhas, os 15% de princesas que nascem são uma reserva biológica subutilizada e tem destino fatal, engrossando o caldo das abelhas decepadas pelo meliponário não muito tempo após nascerem.

O português Cappas, deu uma explicação mais detalhada sobre o assunto. Ele explicou que para desativar o feromona mandibular real as rainhas virgens são por norma decapitadas.

De acordo com Marcelo Silva, a foto mostra uma abelha nova que pode ser uma abelha que não quer trabalhar e é expulsa da colmeia, mas se insiste em retornar ela é implacavelmente morta. Fez ainda outras considerações interessantes:

quando o meliponário é coletivo as abelhas entram as vezes em casas erradas, mas saem ao perceber ou acabam virando da casa, todas abelhas abastecidas do que chegarem são bem vindas, salvo como eu disse for uma pilhadora que veio vazia pra roubar ao ser descoberta é morta, mas neste caso estaria com outras partes detonadas, sem partes da pernas, etc. pois teria lutato e esta da foto morreu sem lutar”.

Interessante como um hábito da vida em sociedade das Mandaçaias pode suscitar tantas possibilidades.

Registro do curso “A prática da Meliponicultura como hobby”.

O curso ocorreu no sábado dia 30/05/2015. O clima estava agradável e favorável para as demonstrações das espécies de abelhas nas dependências do meliponário.

A primeira parte do curso ocorreu de forma teórica explicando os principais conceitos sobre meliponicultura e mostrando como esse tipo de atividade pode ser benéfica para o ser humano. Como observou a participante Eunice “Criar abelhas sem ferrão só tem aspectos positivos”.

c_01
O curso teórico foi dividido em: Apresentação Geral; Aspetos gerais dos Meliponíneos; Características das Espécies Jataí, Mandaçaia, Mandaguari e Uruçu Amarela, Técnicas de divisão de enxames; Tipos de caixas racionais; Como elaborar iscas e Pasto Apícola.

c_02

Entre as dicas expostas, foi explicada em detalhes a técnica do Prof. Aidar que estabelece notas para possibilitar avaliação e divisão de enxames da espécie Mandaçaia. Também foi mostrado o mapeamento do entorno do meliponário com identificação dos hectares de Mata Nativa, cálculo da quantidade de enxames para manejo racional na região e Calendário do Pasto Apícola local.

c_03

Depois da exposição teórica paramos para um pequeno intervalo para saborear o café da tarde. A segunda parte do curso foi prática, os participantes puderam observar os tipos de caixas racionais com demonstrações práticas, as colmeias na prateleira, examinar o interior das mesmas, presenciar as campeiras de um enxame forte de mandaçaia fazendo a defesa do ninho.

c_04

Foi possível também demonstrar como montar caixa isca, como confeccionar propólis de Jataí e Mandaguarí e degustar o mel da abelha Mandaçaia (Melipona Quadrifasciata Anthidioides) e da Bugia (Melipona Mondury). O curso não foi apenas um monólogo, a discussão dos assuntos, o contato direto com as abelhas e equipamentos,  a observação das plantas, sementes, e iscas instaladas é algo que faz a diferença e torna a experiência completa. No final, foi oferecido aos participantes algumas mudas e sementes de plantas que atraem abelhas sem ferrão.

Abaixo, uma foto de uma Mandaçaia em uma flor de Margaridão no Meliponário.

c_06

Para os próximos cursos foi preparado um formulário de cadastro e disponibilidade de datas para atender os que se interessam em conhecer melhor esses maravilhosos seres vivos.

Lembrando que o curso acontece sempre no sábado, em Vinhedo, com duração média de quatro horas e custo de 100$.

Caso tenha interesse em cursar a próxima turma, por favor, preencha o cadastro clicando no link abaixo:
http://www.meliponario.com/cadastro

O exercício dos cinco sentidos no manejo das abelhas sem ferrão

post_5_sentidos

O manejo de abelhas sem ferrão é algo muito prazeroso como atividade recreativa, mas sempre me pergunto como explicar isso. Me ocorre que umas das explicações é que o trato cotidiano desses insetos proporciona exercitar os cinco sentidos do nosso corpo. Essa abordagem holística da atividade nos faz sentir pessoas completas diante de uma situação social cotidiana (trabalho – casa – estudo – atividades sociais) que normalmente não suprem essa demanda. Vamos a eles:

A visão: É sempre importante observar o fluxo de campeiras que entram e saem da colmeia para avaliar a sanidade das mesmas, identificar se entram com polem ou néctar, etc. A abelha Mandaguari, por exemplo, faz um balé incrível ao entrar na caixa, são dezenas de abelhas que ficam voando no entorno, entrando e saindo da colmeia. Essa atividade chega a ser, no meu caso, uma rotina quase que meditativa. É possível esquecer do tempo, da vida citadina, dos problemas e passar bons minutos ali sentado observando o vai e vem das abelhas nas caixas.

O tato: Para alimentação artificial é preciso abrir a colmeia, por vezes dar um empurrão delicado numa abelha, para avaliar a postura é preciso abrir as lamelas de cera, esse processo deixa a sua mão com própolis, melecada de cera. Algo simples, mas necessário que depende de habilidades manuais, artesanais, para manipular a vida. Parece algo muito elementar, mas esquecemos que vivemos em um mundo de produtos altamente industrializados, no qual manipulamos plásticos, vidro, papel e tecido diariamente, – esquecemos dos produtos naturais.

A audição: Ouvir o vai e vem das abelhas é algo fascinate, principalmente quando se posiciona em frente a caixa, agora, ouvir uma revoada de abelhas é fora de série, uma barulho muito grande com um movimentação espetacular. Ademais percebe-se que um enxame está saudável, principalmente de meliponas, ao escutar o barulho das abelhas dentro da caixa em determinados horários do dia.

O olfato: Cada espécie de abelhas sem ferrão (são mais de 300) tem o seu cheiro específico, abrir a caixa e sentir o cheiro da colmeia tem uma sensação única. Nos dias de chuva que as meliponas colocam muita água para fora da colmeia você sente o cheiro de longe. Crio mandaçaias há uns cinco metros do portão de entrada de casa é comum sentir o cheiro delas ao entrar e sair.

O paladar: Falou de abelha lembramos do mel. É só dizer que cria abelha que as pessoas já querem comprar ou experimentar mel. No entanto, o mel é um alimento produzido para suprir a própria colmeia e pouca gente se da conta disso. Nós criadores, tiramos apenas o excedente. Por isso não é tão fácil ter e tirar mel, ele só é possível fazendo o manejo adequado. O que pouca gente sabe que as abelhas sem ferrão tem um mel diferente do que estão acostumados a degustar e é aí que entra o paladar, cada espécie tem um mel diferente da outra. Como se não bastasse os méis variam de acordo com a florada. Dito isso dá para se ter um ideia da variedade de sabores que esses maravilhosos insetos podem nos proporcionar.

Cipó-uva (Serjania reticulata cambess)

Ao criar Abelhas Nativas Sem Ferrão (ANSF) torna-se sempre difícil identificar o pasto apícola que elas forrageiam. A situação se agrava quando próximo ao Meliponário se tem Mata Nativa e não monocultura. No caso do meu Meliponário a Mata Nativa é Atlântica, conhecida por uma Mata fechada de difícil acesso formada por uma formação vegetal heterogênea.

Hoje (09/05/2014) identifiquei uma trepadeira encobrindo as árvores na Mata fechada. Acessei a florada e peguei uma amostra de folha e flor para uma pesquisa visual na internet. Identifiquei como sendo Cipó-uva (Paullinia carpopodea cambess),– de acordo com Rúbio Proença é  (Serjania reticulata cambess ). Inclusive pude confirmar no livro FLORES E ABELHAS EM SÃO PAULO de José Rubens Pirani; Marilda Cortopassi Laurino, que a florada dessa trepadeira se dá de fevereiro a maio, confirmando o fato. Por aqui florou não faz muito tempo, pela minha observação.

cipo_uva_arvore

Abaixo a imagem mostra alguns caixos de flores do cipó. Imagino que o nome deva ter originado devido ao botões das flores que parecem pequenas uvas.

flores_cipo_uva

O Flor do Cipó é conhecida por fornecer néctar para a produção de um mel que tem como principal característica ser um desintoxicante do fígado, estimula a secreção biliar e auxilia no combate dos efeitos da ingestão do álcool. Abaixo detalhe da flor.

flor_cipo_uva

O Cipó-uva tem se tornado escasso devido ao desmatamento. Além disso encontramos sempre ele associado ao mel de abelha Apis Melífera (com ferrão). Em uma busca rápida na internet não encontrei registros dessa planta associada ao mel das Abelhas Nativas Sem Ferrão. Assim sendo, resolvi monitorar a produção de mel de duas espécies de abelhas do meliponário para avaliar se elas vão forragear essa florada.

Abaixo temos a melgueira de uma Mandaçaia (MQA).

melgueira_mqa

Abaixo um sobreninho de Uruçu-Amarela (Melipona Rufiventris Mondury).

urucu_amarela

A ideia é realizar um acompanhamento baseado na comparação das imagens acima com imagens coletadas em um determinado espaço de tempo, de modo que fique evidente a criação ou não de novos potes de mel. Não pretendo ministrar xarope nesse meio tempo. Dentro de alguns dias devo postar as novas fotos para a comparação.

Hoje é dia 10 de junho de 2004, deixei passar um mês e fotografei as melguerias novamente, confiram os resultados abaixo.

n_mqa_d2

Acima temos a melgueira da Mandaçaia, como pode-se perceber os potes de mel diminuiram, outros fatores podem também terem contribuido para isso, mas, em princípio, podemos afirmar que elas não gostam da florada do Cipó-uva.

n_mrm_d2
Acima temos a Melgueira da Mondury, pode-se observar uma aumento da produção de cera, tanto no centro do ninho quanto na parte superior do envolucro, bem como nos podes de mel. É fácil notar também um pequeno aumento no número de potes fechados. Ou seja, o ninho aumentou e a reserva de alimentos também.

Em 08/05/2015, as 7h20 da manhã observei MQA nas flores. Impressionante como após um ano, exatamente na mesma data as flores apareceram encobrindo as árvores.

Em 15/05, uma semana depois da última observação, avistei Mandaçaia e Bugia. A florada continua exuberante.

Em 25/05 por volta das 7h20 da manhã avistei Mandaçaia na florada. Já são praticamente 20 dias de alimento direto. Embora observe que elas coletam nectar nas flores as melgueiras aumentaram apenas um pouco, mas a população da colmeia aumentou visivelmente.

Dia 01/07/2015, venho observando a florada desde então. As flores antigas já secaram a folhagem ficou avermelhada, formando cachos como se fossem flores e fizeram uma espécie fruto. As flores brancas continuam a brotar em outros lugares da mata. Já somam mais de um mês de florada. Talvez a maior e mais consistente para o meliponario, apesar do frio. O ideal é prepara as colmeias para essa época ano que vem.

As fotos desse site são bem parecidas. Lá é identificada como Cipó-timbó-açú, cipó-uva, timbó-grande, timbó (Serjania laruotteana Cambess) https://sites.google.com/site/florasbs/sapindaceae/cipo-timbo-ac

Um artista dedicado às abelhas.

João F. M. Camargo nasceu em 1941 e faleceu em 2009.  Professor, pesquisador, naturalista dedicado às abelhas, me chamou a atenção por seus elaborados desenhos para trabalhos científicos sobre abelhas. Com pleno domínio de uma técnica baseada no bico de pena e nanquim criava ilustrações extremamente detalhadas por meio do pontilhismo.

A técnica do pontilhismo lida com a formação de imagens por meio de pontos negros com distancias variadas que criam uma espécie de reticula para formar as noções de claro e escuro com tons de cinza variados.

jc01

Acima o detalhe do ninho de uma Partamona helleri, nome popular Boca de Sapo, sob epífita, que em etimologia quer dizer planta que vive sobre outra planta.  Na imagem procurei  fazer uma montagem ampliando a parte da imagem que mostra a entrada da colmeia, para evidenciar detalhes da técnica. A imagem inteira é percebida em primeiro plano.

É fácil perceber que o professor Camargo usava suas habilidades para criar imagens para acompanhar, explicar, interpretar, acrescentar informação, sintetizar ou até simplesmente ajudar estudiosos a decorar textos. Essa técnica permite uma boa reprodução de imagens principalmente em processos gráficos sofríveis.  Ao mesmo tempo que cria incríveis originais, verdadeiras obras de arte. Mas porque não usar fotos ou desenhos mais elaborados no computador? Primeiro porque esses recursos não eram tão evoluídos nos tempos que o professor viveu. Em segundo lugar,  por que  ao produzir uma ilustração você pode  construir uma cena sem destruir um ninho de abelha e explicar mecanismos visualmente que seriam muito difíceis de serem montados para uma foto. Um bom exemplo desse tipo  são os cortes longitudinais.

jc02
A imagem mostra o corte longitudinal do ninho de uma Partamona Cupira, nome popular Cupira Preta.

O nosso cientista/artista ilustrou não apenas suas produções, mas também trabalhos de outros pesquisadores bem como pranchas para material didático nas instituições onde atuou como estudante e professor. Seus magníficos desenhos de abelhas, ninhos e flores percorrem o mundo e têm sido reproduzidos em diversas publicações. Os estudiosos da morfologia de abelhas, curisos e apreciadores de uma boa ilustração da natureza fatalmente encontraram suas obras pelo caminho.

jc04

Referências:

CAMARGO, João M. F.; PEDRO, Silvia R. M.. Meliponini neotropicais: o gênero Partamona Schwarz, 1939 (Hymenoptera, Apidae, Apinae) – bionomia e biogeografia.Rev. Bras. entomol.,  São Paulo ,  v. 47, n. 3,   2003 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0085-56262003000300001&lng=en&nrm=iso>. access on  24  Feb.  2014.  http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262003000300001.

http://www.producao.usp.br/bitstream/handle/BDPI/6568/ art_PEDRO_Necrologico_Joao_M_F_Camargo_-_um_2009.pdf?sequence=1