O funcionamento da postura da Mandaçaia.

Curioso por saber como funciona a postura das minhas colmeias de Mandaçaia MQA resolvi recorrer aos colegas do Fórum Abena pelo Facebook e por e-mail. O resultado foi bem interessante.

A primeira etapa foi “cercar o problema”, ou seja, formular a pergunta de modo específico. A pergunta foi formulada da seguinte forma: Gostaria de saber se alguém conhece algum estudo ou já observou na espécie Mandaçaia o tempo que a rainha e sua casta levam para iniciar e finalizar uma POSTURA?. Principalmente numa divisão nova. Ou seja, quanto tempo levaria do início ao fim a primeira postura, o início da segunda, depois a terceira e assim por diante…

Resumindo: A partir do início da postura, quanto tempo demora para finalizar um andar de postura e subir para o outro?

O professor David Aidar recomendou artigos dos professores Dr Ronaldo Zuchii e Dra Luci Bego. A pesquisa pelo Lattes dos mesmos mostrou artigos sobre o temas, mas muito antigos o que impossibilitou achar algo em pdf na busca pelo Google.

Consultando o livro do Prof. Warwick Estevam Kerr, baseado em sua tese de Doutorado defendida em 1948, sob o título “Estudos Sôbre o Gênero Melipona”, encontrei na página 193 que a Mandaçaia MQA em 44 dias produz 596 ovos. Entre 13 e 22 ovos por dia.

Segundo o livro a Mandaçaia do Prof. Aidar (1996, p. 22) um favo de 6cm tem 150 células.

Considerando o favo médio de postura nova de 6cm com 150 células e valor médio de 17 ovos por dia, conclui inicialmente que o intervalo estimado entre um ciclo de postura e outro pode ser de 150/17= 9 dias.

Nesse meio tempo em que pesquisei por conta a informação apareceram algumas informações interessantes na lista de discussão por e-mail.

O Meliponicultor Eurico Novy de Sabará – MG, sugeriu a seguinte fórmula:

(Média da quantidade de abelhas  de uma espécie, dividido, pela quantidade (média)de dias de vida das abelhas) mais 20% (Zangões e princesas). Vejamos um exemplo:  600 mandaçaias (média) dividido por 50 (média) dias = 12 posturas dia (média)12 posturas dia mais 20% = 14,4 posturas dia. Então seria aceitável uma hipótese de que uma rainha de mandaçaia (MQA) tenha uma postura média (em condições ideais) de 15 ovos por dia.

O Meliponicultor Marcelo de Mogi-Mirim -SP,

Olha a postura da rainha depende das abelhas novas elas que produzem alimento larval e alimenta a rainha quanto mais tiver delas mais a rainha acelera a postura, desde que se tenha campeiras e condições favoráveis. Rainhas de mandaçaias MQA por dia faz postura de +/- 20 células dia enxame fraco, +/- 30 médio e +/- 40 a 50 forte. Discos de cria em qualquer enxame a rainha faz 1 disco a cada 4 a 5. Valores médios, mas bons manejos e tempo pra lidar da pra fazer a rainha fazer 1 disco com 350 crias a cada 2 dias durante 1 semana. Outro detalhe importante as Rainhas de todas especies não fazer a postura por disco e sim em forma hexagonal/cônica piramidal sempre nas extremidades e de baixo pra cima, raras vezes faz a postura de forma helicoidal, mas também de baixo pra cima.

O Português João Cappas, complementou a partir do comentário do Marcelo: Mas para isso ocorrer a rainha colocar tantos ovos ela tem de comer muitos ovos alimentares , ou seja tem de ter muitas obreiras a colocar ovos para ela comer para ela fabricar os dela a tempo de fazer 14, 4 ovos dia . Uma rainha de Mandaçaia pode colocar esses ovos por dia mas o normal é menos . São muitos factores em jogo como diz Gesimar. Tem de ter em conta que um ovo com uma alimentação normal ( sem ovo alimentar )   leva 3 dias a ser formado nos ovários.

Por fim, Marcelo complementou:

Só um aparte no texto do amigo CAPPAS, aqui em SP em Mogi Mirim as mandaçaias enxames médios  enchem 1 sobre ninho com 4 discos de +/- 200 crias ou 5 discos de crias de +/- 150 crias cada em +/- 15 dias anexo fotos com evolução desde inicio na base do sobre-ninho ate colocar na tampa a postura estas fotos em intervalo de 12 dias fez 4,5 discos com o clima atrapalhando (temperatura fria de inverno nos últimos 10 dias e choveu 6 dias seguidos). Na ultima foto da pra ver como fizeram bastante involucro pelo frio e chuva.

A partir dos dados apresentados acima construí alguns gráficos para ilustrar essa situação. A primeira figura mostra o ciclo de postura de uma colmeia média de Mandaçaia. Considerando os tempos médios de vida de embrião, abelha nova e campeira conforme a literatura sobre o tema, pode-se chegar ao valor médio de 10 dias entre a postura de um disco e outro. Ou seja depois de estabilizado o enxame, nascem abelhas de 10 em 10 dias.

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Figura 01 – Ciclo de 10 dias de um enxame médio.

Abaixo na figura 2 a simulação de uma divisão, vemos o gráfico de uma colônia mãe ao ceder discos para formar um enxame filho. Nesse caso o ciclo de 10 dias é interrompido e demora trinta dias para voltar a produzir abelhas novamente.

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Figura 02 – Gráfico que exemplifica o que acontece no ciclo de postura quando o enxame Mãe cede três discos.

Por fim, o que acontece com as campeiras no enxame mãe diante da situação. É fácil perceber que a perda dos discos implica em um primeiro estágio de 45 dias até as campeiras morrerem. Podemos dizer que nesse tempo inicial o enxame segue o ser curso estabilizado. No entanto, após os 45 dias o enxame fica sem abelha campeira, entrando em um estado crítico de 15 dias até estabilizar novamente.

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Figura 03 – Gráfico mostrando o ocorre com as campeiras no processo de divisão.

Ao analisar a situação acima “postura versus divisão” é possível perceber que devemos deixar o enxame mãe que cede três discos nascentes pelo menos dois meses de quarentena, cuidando com alimentação complementar e pelo menos uma revisão aos 40 dias e talvez outra aos 60 dias.

É preciso que fique claro que foi trabalhado no texto uma teoria com números médios e aproximações imprecisas, sem base científica, na prática, ocorrem muitas variações na vida de um enxame. Esse estudo serve para nortear o meliponicultor quanto ao manejo adequado e evitar o sofrimento ou perda dos enxames mais do que uma receita de bolo ou regra.

O interesse sobre a postura do enxame de Mandaçaia pode levar para muitas questões que não apenas essas apresentadas. Tomando esse pensamento como ponto de partida pode-se elaborar outras hipóteses sobre enxames novos, frutos de divisões, mas isso é assunto para um próximo post.