O exercício dos cinco sentidos no manejo das abelhas sem ferrão

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O manejo de abelhas sem ferrão é algo muito prazeroso como atividade recreativa, mas sempre me pergunto como explicar isso. Me ocorre que umas das explicações é que o trato cotidiano desses insetos proporciona exercitar os cinco sentidos do nosso corpo. Essa abordagem holística da atividade nos faz sentir pessoas completas diante de uma situação social cotidiana (trabalho – casa – estudo – atividades sociais) que normalmente não suprem essa demanda. Vamos a eles:

A visão: É sempre importante observar o fluxo de campeiras que entram e saem da colmeia para avaliar a sanidade das mesmas, identificar se entram com polem ou néctar, etc. A abelha Mandaguari, por exemplo, faz um balé incrível ao entrar na caixa, são dezenas de abelhas que ficam voando no entorno, entrando e saindo da colmeia. Essa atividade chega a ser, no meu caso, uma rotina quase que meditativa. É possível esquecer do tempo, da vida citadina, dos problemas e passar bons minutos ali sentado observando o vai e vem das abelhas nas caixas.

O tato: Para alimentação artificial é preciso abrir a colmeia, por vezes dar um empurrão delicado numa abelha, para avaliar a postura é preciso abrir as lamelas de cera, esse processo deixa a sua mão com própolis, melecada de cera. Algo simples, mas necessário que depende de habilidades manuais, artesanais, para manipular a vida. Parece algo muito elementar, mas esquecemos que vivemos em um mundo de produtos altamente industrializados, no qual manipulamos plásticos, vidro, papel e tecido diariamente, – esquecemos dos produtos naturais.

A audição: Ouvir o vai e vem das abelhas é algo fascinate, principalmente quando se posiciona em frente a caixa, agora, ouvir uma revoada de abelhas é fora de série, uma barulho muito grande com um movimentação espetacular. Ademais percebe-se que um enxame está saudável, principalmente de meliponas, ao escutar o barulho das abelhas dentro da caixa em determinados horários do dia.

O olfato: Cada espécie de abelhas sem ferrão (são mais de 300) tem o seu cheiro específico, abrir a caixa e sentir o cheiro da colmeia tem uma sensação única. Nos dias de chuva que as meliponas colocam muita água para fora da colmeia você sente o cheiro de longe. Crio mandaçaias há uns cinco metros do portão de entrada de casa é comum sentir o cheiro delas ao entrar e sair.

O paladar: Falou de abelha lembramos do mel. É só dizer que cria abelha que as pessoas já querem comprar ou experimentar mel. No entanto, o mel é um alimento produzido para suprir a própria colmeia e pouca gente se da conta disso. Nós criadores, tiramos apenas o excedente. Por isso não é tão fácil ter e tirar mel, ele só é possível fazendo o manejo adequado. O que pouca gente sabe que as abelhas sem ferrão tem um mel diferente do que estão acostumados a degustar e é aí que entra o paladar, cada espécie tem um mel diferente da outra. Como se não bastasse os méis variam de acordo com a florada. Dito isso dá para se ter um ideia da variedade de sabores que esses maravilhosos insetos podem nos proporcionar.

Caixa para abelha Iraí (Nannotrigona Testaceicornis)

Caixa para abelha Iraí (Nannotrigona Testaceicornis)

Comecei a me interessar por abelhas pela espécie Iraí. Eu tinha uma colmeia no muro de casa justamente no lugar onde precisava embutir uma caixa de correio. Ao invés de queimar ou jogar a colmeia no mato como muitos fazem resolvi pesquisar sobre o assunto e coloquei a colmeia numa caixa rústica, depois pesquisei mais e fiz uma caixa melhor, o tempo passou estudei mais o assunto, tentei confeccionar caixas melhores, mas percebi que sem equipamentos e tempo para me dedicar a marcenaria não conseguiria elaborar boas caixas, foi então que resolvi comprar caixas de um profissional, assim a terceira caixa que transferi essa colmeia foi uma caixa comprada e muito bem confeccionada. Muito bem, o tempo passou fazia quase um ano que tinha a colmeia de Iraí numa caixa padrão INPA do mesmo modelo das que usadas para Jataí, mas uma coisa me incomodava, as abelhas não subiam os potes de mel para a Melgueira.

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Acima exemplo de melgueira INPA usada.

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Aqui o modo como as Iraís procedem para não subir para a melgueira, elas tampam os buracos de acesso com cera.

Levantei o assunto no grupo de discussão ABENA e Jean Locatelli sugeriu um modelo de caixa que fizesse com que as Iraís produzissem os potes de mel de modo organizado. A partir da sugestão do Jean elaborei alguns esboços e cheguei no modelo abaixo. A ideia consiste basicamente em criar uma câmara de entrada, que as Iraís tanto gostam, e deixar um espaço entre a porta do fim da câmara de entrada e os discos de cria para elas depositarem os potes de pólen e um espaço acima para que elas possam depositar os potes de mel separadamente dos discos de cria.

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Passei o esboço para o colega Pedro Ziti que fez um desenho técnico para que eu aprovasse as medidas.
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Após aprovar as medidas do projeto, Pedro confeccionou a caixa de modo modular, de modo que eu pudesse retirar a tampa da câmara de entrada ao menos no começo e pudesse verificar se a ideia daria certo. Abaixo temos a caixa sem a tampa da câmara de entrada e na sequência ela com a tampa de encaixe.

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A parte final foi transferir a colmeia para caixa (17/10/2013).

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Agora é esperar para ver se a ideia vai dar certo. O estudo continua, em breve coloco nesse mesmo post as fotos do desenvolvimento da colmeia na nova caixa.

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Pouco mais de dois meses depois (27/12/2013) da transferência da colmeia para a caixa nova podemos notar que os discos de cria encostaram na tampa enquanto os potes de mel não foram para o local projetado.

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Nesse detalhe percebe-se os potes de mel entre o ninho e a câmara de acesso mostrando que a parte acima da câmara não foi ocupado com os potes de mel conforme esperado.

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Por fim, um detalhe da câmara de entrada, que diferente do que imaginei não possui lamelas de cera ou túnel, apenas abelhas transitando livremente.